A Escola Secundária Sá da Bandeira (antigo Liceu de Santarém) Fotografia encontrada em https://correiodoribatejo.pt/escola-sa-da-bandeira-assinala-175-anos-de-futuro/https://correiodoribatejo.pt/escola-sa-da-bandeira-assinala-175-anos-de-futuro/

No Liceu Nacional de Santarém (1959-1960)

 

O meu primeiro dia

 

Dois meses após ter defendido a tese de licenciatura em História e Filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa, no dia 29 de Julho de 1959, fui nomeado professor de serviço eventual do 4º Grupo e colocado no Liceu Nacional de Santarém. Aí compareci na manhã do dia 1 de Outubro, depois de uma viagem de combóio que durava mais ou menos uma hora e quinze minutos. Era uma quinta-feira cheia de sol e bastante quente.

 

Tinham decorrido apenas cinco anos para sair de um liceu, como aluno, e entrar noutro, como professor. Alcançara o que sempre desejara - ser professor. Não vou dizer que era um "sonho", mas era o que eu desejava como profissão. Porquê? Não tinha na família nenhum exemplo que porventura me influenciasse, por isso posso dizer que veio de mim próprio esse gosto pelo ensino.

 

Muitos anos depois, num livro de Orlando Ribeiro, Problemas da Universidade*, assinalei uma frase na qual me revi: "Ensinar é sem dúvida um dos grandes subterfúgios para iludir o tempo" (p. 112). Na verdade, penso que ter sido professor me ajudou a conservar por muitos anos uma certa juventude, que anualmente era preservada pelo contacto sempre renovado com os meus alunos e, mais tarde, por colegas mais jovens.

 

Mas nesse dia 1 de Outubro de 1959 eu não sabia nada - a não ser o que elaborara no meu pensamento, tendo presentes os dezasseis anos de aluno nos quais pudera observar umas dezenas de professores, da escola primária (era assim que se dizia) à Universidade. Contrariamente ao que muitos pensam, é possível a um aluno consciente avaliar um professor. Eu tinha uma noção clara sobre o que devia fazer e não devia fazer, sobretudo em relação a comportamentos; mas não sabia, porque nunca experimentara, como seria a minha relação com os alunos.

 

Recordo-me que fui cordialmente recebido pelo Reitor, o Dr. Berto Guerreiro, que me entregou o horário e a caderneta referente às turmas que me eram confiadas. Para 22 horas de serviço semanal, tinha no meu horário 8 turmas, uma das quais me perturbou: Língua e História Pátria a um 1º-A! “Senhor Reitor, eu sou de História, mas não de Português…” A resposta veio com um sorriso: “Está no Estatuto, Sr. Dr., eu posso dar-lhe essa turma porque lhe reconheço competência para isso…” E acrescentou depois algumas palavras de conforto. Entretanto, já percebera o que me esperava para esse ano inicial.

 

Além dessa turma do 1ºano (que corresponde a um 5º do actual ensino básico) eu tinha mais duas turmas de História do 3º (actual 7º), três do 4º (actual 8º) e duas turmas do 7º (actual 11º) de OPAN (Organização Política e Administrativa da Nação), uma disciplina que foi banida depois do 25 de Abril. Ao todo, por alto, eu tive cerca de 320 alunos: as turmas rondavam os 40. A minha caderneta tinha uma lombada de uns 7 ou 8 centímetros: eu chamava-lhe, carinhosamente, o meu missal…

 

Apesar de tudo, rapidamente procurei processar positivamente toda a informação recebida. O meu horário era agradável: só tinha aulas da parte da manhã, a começar às 8 e 30 e a terminar às 12 e 40. E mesmo o facto de ter de assumir uma turma de Língua e História Pátria no 1º ano, aceitei-o sem receio: sempre tratara bem a língua portuguesa, só precisava de saber o que era pedido no programa.

 

Nesse primeiro dia conheci certamente vários colegas e em especial os do meu grupo. Éramos três: um efectivo, o Dr. Joaquim Figueiredo (naturalmente mais velho), e um outro eventual, como eu, o Dr. Luís Filipe Demony (mais ou menos da minha idade). Creio que houve simpatia mútua, que perdurou ao longo do ano: demo-nos sempre muito bem, sem quaisquer problemas na relação profissional.

 

Preocupei-me, também, em saber quais os alunos que compunham as turmas que me eram entregues. Surpresa: a do 1º ano era constituída apenas por meninas, as restantes eram mistas. As duas turmas do 7º ano tinham alunos de todas as alíneas, ou seja, de Letras e Ciências.

 

Nesse dia não houve aulas. Por isso regressei a Lisboa, onde residia, ao princípio da tarde. Tinha de tomar decisões, e a principal era: poderia continuar a viver em Lisboa, ou teria de me fixar em Santarém? A resposta só poderia ser dada depois de uma análise aos horários dos transportes públicos. Eu não tinha automóvel – aliás, nem carta de condução. Essa análise mostrou que teoricamente era possível manter-me em Lisboa. Havia ligações aceitáveis de combóio, ainda que com horários pouco sedutores. Saindo de Lisboa (Entrecampos) pelas 6 e 30, com ligação em Braço de Prata às 6 e 50, tinha depois uma composição que chegava a Santarém às 8 e 23. Teria de ir de táxi para o Liceu, e a minha expectativa era a de chegar antes do 2º toque… O regresso era assegurado por um combóio que partia de Santarém às 13 e 20, chegando a Lisboa pelas 15 horas. Na altura ainda não sabia, mas ainda seria possível almoçar na cantina do Liceu e chegar a tempo de apanhar o combóio.

 

Assim terminou o meu primeiro dia como professor – ainda sem alunos…

 

* Ribeiro, O. (1964). Problemas da Universidade. Lisboa: Livraria Sá da Costa, Editora.  

 

O Liceu de Santarém nos finais dos anos 50 do século XX

 

A escola na qual comecei a minha actividade como docente não se diferenciava muito daquelas que tinha frequentado como aluno (os Liceus de Passos Manuel e D. João de Castro, em Lisboa). O edifício era relativamente recente, as instalações razoáveis, ainda que já insuficientes dado o número de alunos que as frequentavam, os equipamentos cingiam-se aos mais necessários. Continuava a considerar-se normal que as turmas, do 1º ao 7º ano, tivessem mais de 40 alunos (todas as que me foram atribuídas excediam esse número). Havia mais professores efectivos (ou com exame de Estado, auxiliares ou agregados) do que de serviço eventual, mas o número destes começava já a salientar-se, uma vez que os quadros tinham sido estabelecidos em 1947 e a frequência de alunos crescia todos os anos. Já nessa altura tinha sido necessário “inventar” espaços para albergar todas as turmas: uma do 7º ano ocupava, por exemplo, a área de um amplo vestiário que tinha sido eliminado.

 

O ambiente no Liceu era agradável. O Reitor era uma pessoa estimável, com quem era fácil comunicar, com um trato delicado que na altura não seria o mais comum… Como é óbvio, relacionei-me mais com alguns do que com outros colegas, mas de um modo geral dei-me bem com todos e apenas tive um leve “desacerto” com o Vice-Reitor (contarei a história mais adiante). Os alunos… Bom, os alunos começaram, desde o primeiro dia, a constituir o centro das minhas atenções. De algum modo, eu estava perto deles: tinha 23 anos, e numa turma terminal com rapazes e raparigas na faixa dos 17, 18 anos, a diferença não era muita. Como deixei escrito atrás, eu tinha ideias acerca do que devia fazer e não fazer, mas devo dizer que aprendi muito, ao longo da vida, com os meus alunos. Como entendi bem o sentido das palavras que serviram de pórtico a um livro de Marcel Reinhard**: “A mes élèves, qui m’ont appris à enseigner”. Essa aprendizagem foi-se fazendo ao longo do tempo. Certos princípios mantive-os praticamente inalteráveis, mas em relação a alguns outros mudei, e muito.

 

Nesse ano lectivo houve duas comemorações a que o Liceu se associou: o 10º aniversário da NATO (em 1959) e o 5º centenário da morte do Infante D. Henrique (1960). Se em relação à primeira a minha colaboração se cingiu a, numa aula pré-determinada (creio que ao 4º ano, actual 8º), dar relevo ao facto, em relação à segunda o encargo foi maior: fui designado para proferir uma conferência sobre D. Henrique. Infelizmente este é um dos poucos textos que desapareceram, fruto das muitas mudanças de residência que fiz ao longo da vida. Recordo-me do evento, que ocorreu no ginásio do Liceu, numa sessão aberta ao exterior, pelo que não estavam apenas alunos e colegas.

 

Que mais dizer deste meu primeiro ano de experiência docente? Quis, antes de mais, integrar-me na vida da escola. Por isso, depois das férias do Natal, deixei de ser um “commuter”, como os ingleses designam as pessoas que, para exercerem a sua profissão, têm de viajar diariamente, e instalei-me em Santarém, alugando um quarto numa vivenda muito perto do Liceu. Isso permitia-me ter mais tempo para preparar as minhas aulas, que, relembro, cobriam quatro disciplinas diferentes. Passei a assinar a Labor, a revista dos professores do ensino liceal, conheci a Palestra, do Liceu Normal Pedro Nunes, e tentei, dos colegas mais velhos, informação que considerasse útil. Em abono da verdade, essa foi a parte menos conseguida…. Dois exemplos. Logo no início contactei o professor efectivo do meu grupo e perguntei-lhe como organizava ele a distribuição das rubricas do programa pelas aulas previstas (quer no 3º quer no 4º ano de História o número de rubricas era bastante elevado). A resposta que me deu, com a simpatia que sempre teve para comigo, descoroçoou-me: “O colega vê o número de páginas do livro (o célebre compêndio do Matoso pai), divide pelas 90 e tal aulas que vai ter no ano, e aí tem…” É claro que não segui o conselho.

 

Segundo exemplo. Quando, nas turmas do 4º ano (actual 8º), abordei uma das rubricas do programa, sobre a religiosidade do homem medieval, pareceu-me interessante dar a conhecer, para além das imagens habituais, algumas peças de música da época, em especial canto gregoriano, do qual tinha um disco disponível. Procurei saber onde no Liceu poderia encontrar um gira-discos. Para minha surpresa, um funcionário disse-me que existia um, no gabinete de… Física! Que falasse com o senhor Vice-Reitor, que também era o director do gabinete.

 

A conversa, que já não consigo reproduzir, não acabou muito bem, embora não me tenha excedido a ponto de poder sofrer represálias. O senhor Vice-Reitor explicou-me que aquele equipamento estava guardado num armário e não era disponibilizado para aulas. Disse-lhe certamente que não concordava, mas isso não alterou nada.

 

Tinha aprendido uma coisa importante, que viria a reencontrar, pela vida fora, em muitas instituições de ensino: muito material de interesse pedagógico, tal como equipamentos, sobretudo os mais sofisticados, guardam-se em armários ou arrecadações, e o seu uso efectivo é muito pequeno.

 

Resolvi nessa altura o meu problema com uma decisão que até foi importante para o meu futuro imediato: comprei a prestações um pequeno gravador (recordo a marca: Geloso), gravei o que queria e utilizei-o nas aulas.

 

Gostei de estar em Santarém. Tanto que, dois anos mais tarde, pedi expressamente para ser lá colocado, ainda que depois tivesse de sair logo em Novembro; e ainda mais tarde fiz lá o serviço de exames da primeira época.

 

Ao preparar este texto, fiquei a saber que fora dado à rua onde se situa a Escola Secundária Sá da Bandeira o nome de uma professora que à época leccionava Português e Francês, a Drª Maria Inês Schaller Dias. Homenagem justíssima, era uma Senhora que todo o Liceu estimava, e de quem sempre tive apoio neste meu primeiro ano de actividade.

 

Para além dela, não posso esquecer o Dr. José Gomes Brás, mais conhecido por Reis Brasil, um homem curiosíssimo, com uma história de vida incrível, que comigo privou nalgumas viagens de comboio e se mostrou afável e dialogante, mas que no Liceu era esquivo, nunca ia à sala de professores (que aliás não existia, porque se convertera em sala de aulas, e era agora num átrio adaptado no 1º andar), preferindo ir para a sala do chefe do pessoal de apoio (na altura, os chamados contínuos)… Igualmente guardo boas recordações do convívio com o Dr. Joaquim Jacob, pai de um meu aluno do 4º ano, que mais tarde voltei a encontrar no Liceu de Aveiro, e o Dr. Arnaldo Faísca, um algarvio sempre bem disposto, por acaso ambos de Geografia.

 

 ** Reinhard, M. (1957). L’enseignement de l’Histoire et ses problèmes. Paris: Presses Universitaires de France.

 

 

O professor que fui em Santarém

 

Disse anteriormente que tinha ideias claras do que queria ser como professor. Na verdade, um dos aspectos que mais detestava nos meus professores era a distância a que se colocavam em relação aos seus alunos e, também, a maneira como se apresentavam nas aulas, alterando os comportamentos sem razão aparente. Por isso decidi que nunca seria um professor que barrasse a comunicação com os meus alunos e que procuraria, sempre, estar disponível para a interacção – antes, depois e durante as aulas. Quando me apresentava tinha sempre o cuidado de o explicitar, acrescentado que era normalmente uma pessoa bem-disposta, sem flutuações de humor – embora pudesse, uma ou outra vez, ser ríspido se houvesse motivo para tal. E isso aconteceu algumas, mas não muitas, vezes.

 

Não obstante, eu estava “formatado”, como aluno, para um tipo de gestão pedagógica que ainda não tinha verdadeiramente questionado. Assim, se é verdade que sempre permiti que os meus alunos me questionassem, falei sempre demais, fui sempre muito expositivo, e sobretudo fui sempre muito exigente. Preparava sempre as aulas muito bem, usava os materiais que tinha à disposição (e como disse atrás, outros que descobria), e esperava um bom retorno por parte dos alunos. O que, claro, não sucedia com todos.

 

Nesse tempo, o termo “avaliação” era praticamente ignorado. Nas escolas, os alunos tinham de ser “classificados”, nos exercícios escritos e chamadas orais, e sobretudo no final do período ou do ano escolar, com ou sem exames. Nessa altura a palavra mais ouvida no Liceu era “nota”. E eu ligava à nota um valor absoluto: queria ser justo e a justiça que me movia nesses tempos era uma justiça aritmética: um 12 e um 14, em dois momentos do período escolar, eram um 13; um 7 e um 7 eram um 7.

 

Quando penso nesse tempo, felizmente curto, penaliza-me muito pelo que fiz. Sobretudo em exames orais acredito que terei sido algumas vezes ludibriado pela tal justiça aritmética. Mas era a norma, e no momento não tive ajuda para ser diferente.

 

Apesar de tudo, a minha experiência desse ano foi importante e positiva. Consegui criar o bom ambiente que queria com os meus alunos, fossem eles o grupo de meninas do 1º A, com dez, onze anos, fosse o grupo dos finalistas, rapazes e raparigas de 16, 17 ou 18 anos. Tratei todos por tu: era assim que gostava que os meus professores me tratassem.

 

Tenho consciência de algo que aprendi nesse ano inicial. Sempre tive algum sentido de humor, e por vezes, espontaneamente, gracejo com o que acontece. Penso que isso é importante para um professor. Mas percebi quando exagerei, a propósito do apelido de uma aluna, e de algum modo o mal-estar que pressenti por tê-lo feito, em mim e nela, foi um sinal que tive sempre presente no futuro.

 

E para terminar…

 

Apenas por curiosidade. O meu vencimento como professor de serviço eventual no Liceu de Santarém era 4 000$00 (ilíquido), que correspondia à quantia de 3 730$00 líquida, nos meses de Outubro a Julho. Segundo a tabela de conversão da PORDATA, estes valores corresponderiam a € 1755.03 e 1636.57, respectivamente. Em Agosto, por simpatia do Reitor, recebia o equivalente a 10 dias de trabalho. No resto do mês e em Setembro não recebia qualquer vencimento – estava desempregado, e só me restava concorrer para novo ano escolar.

 

Também nesse ano paguei, pela primeira vez, um imposto, neste caso municipal: o imposto de trabalho, no valor de 20$00… Em 1959-60 os funcionários públicos estavam isentos de imposto.

 

 

O Liceu da Horta em 1960 (Foto encontrada no site da Asociação dos Antigos Alunos do Liceu da Horta)

O novo"Liceu": a Escola Secundária Manuel de Arriaga (2018),